Você pode até achar que estou tomando o seu tempo para falar de um câncer que é relativamente raro. Mas, defendendo este espaço, o mieloma múltiplo nos dá uma lição que vale cada minuto de atenção. Ela é a seguinte: uma das mais perigosas ciladas em matéria de saúde é aceitar alguns sinais, digamos, não muito agradáveis como se fossem inerentes à passagem do tempo. E, sim, o mieloma múltiplo cobra uma fatura altíssima quando um engano desses acontece.

A doença não exige, ao menos logo de cara, que a pessoa pague com a própria vida só porque andou bem conformada com dores incessantes na lombar (achando que era a maldita cadeira do escritório, sabe como é…). Também finge perdoar se, um dia, a criatura não estranhou quebrar o osso em um tombo besta (ó, azar!). Ou se, pra variar, sentia-se acabada de tão cansada (quem nunca?, é o que costumava dizer aos seus botões). O preço do mieloma múltiplo é bem mais cruel: costuma ser a independência do infeliz que ignorou os seus sinais. Tão preciosa quanto a vida é a autonomia para tocá-la, não é, não?

De fato, estamos falando de um câncer que acomete de 1 a 2 pessoas em cada 200 mil. Parece pouco. Em parte, é por isso que a gente mal ouve falar dele ou, se ouve, tem aquela sensação de “não é comigo”. Ora, ninguém se acha a agulha no palheiro. Ainda assim é o segundo câncer hematológico — isto é, do sangue — mais frequente do planeta.

E também, cá entre nós — ao menos é a minha visão —, essa questão de quantidade interessa bastante na hora de montar políticas públicas de saúde. Mas prefiro falar para dois sujeitos na multidão de 200 mil que poderiam estar em casa de boa, engolindo um simples comprimido e mantendo a doença sob controle.

“O diagnóstico precoce e o uso desses medicamentos orais, que não fazem cair os cabelos nem nada, proporcionam uma vida normal por mais de dez anos”, informa o professor Walter Moisés, hematologista responsável pelo Ambulatório de Mieloma Múltiplo da Universidade Federal de São Paulo. “E a tendência é esse tempo se prolongar cada vez mais.”

Ou seja, esse câncer tem tudo para se tornar completamente controlável. Só que infelizmente, na prática, não é o que vemos por aí. Hoje, a sobrevida alcança uns seis anos e, olhe lá, nas piores condições. O mal é flagrado quando os pacientes já estão em frangalhos, precisando de um cuidador até. Seus ossos viraram queijos suíços capazes de se esfacelar à toa, os rins sofrem as consequências do excesso de cálcio que tentou varrer da circulação… O corpo mal se move direito.

Tudo começa sorrateiramente no interior de grandes ossos, no líquido viscoso da medula, onde as células sanguíneas são produzidas. Em determinado momento, sabe Deus por quê — adianto que não há nenhum fator de risco associado à doença, que surge em pé de igualdade em homens e mulheres —, a linha de produção de parte dessas células destrambelha e elas passam a crescer de um jeito desordenado. São justamente as do plasma ou, sendo ainda mais específica, células produtoras de anticorpos. Eles, então, surgem aos borbotões na medula.

Anticorpos, você deve saber, são moléculas de proteína, também chamados de imunoglobulinas. O organismo os produz para, feito mísseis em nosso sangue, atacarem todo tipo de invasor, como vírus e outros tantos. Se aumentam diante da ameaça de uma infecção, uma vez resolvido o problema, voltam a diminuir. Mas a superprodução constante de anticorpos defeituosos, claro, não pode ser boa coisa.

Até porque a safra exagerada e que não para de se multiplicar ocupa um espaço danado. Confinadas no ambiente do osso e cada vez mais numerosas, as moléculas de anticorpos vão se apertando e se infiltrando nos tecidos na primeira oportunidade. “Resultado: invadido assim, o osso fica poroso, esponjoso e frágil, a ponto de se quebrar espontaneamente”, conta o professor Walter Moisés.

O sufoco — literalmente uma superlotação — dentro dos ossos leva a pessoa a sentir uma dorzinha chata causada pela pressão dos anticorpos. Ele geralmente acomete a lombar, já que há um grande volume de medula fabricando sangue na ossatura dessa região. Não raro, porém, quem sofre esse mal-estar permanece resignado. Talvez até corra ao pronto-socorro em momentos de maior aflição. Ou, quem sabe, procure um ortopedista. Na certa, ganhará um analgésico no lugar de um diagnóstico, que poderia ser esboçado por um exame de sangue. “A própria classe médica quase nunca levanta a lebre de que talvez a pessoa que vive com dores nos ossos está com um mieloma”, constata o professor Moisés.

Se duvidar, querendo calar a sua dor, o indivíduo comece a fazer pilates, RPG, caminhada. Nada contra, mas… Se cai e quebra um osso, ganha o pito do clínico por não consumir lácteos com o seu sagrado cálcio. Afinal, já é um sessentão ou uma sessentona… Ah, se está cansado, à beira do esgotamento físico? Dedução apressada: o corpo é que já não é mais aquele capaz de aguentar o estresse do dia a dia, e ponto.

Mas o cansaço fundo, no caso, surge porque os anticorpos produzidos aos montes pelas células anormais do plasma não dão espaço para os glóbulos vermelhos, que ficam em franca minoria. A consequência é a anemia e, por causa dela, uma eterna fadiga.

Sim, o mieloma tem preferência por pessoas entre 60 e 65 anos — nos dias de hoje, extremamente produtivas, longe de se considerarem velhas para trabalhar, namorar, viajar, viver. Mas, ainda assim, há um preconceito: o de que devem estar naturalmente travando, o que nem sempre é realidade, apesar de o vigor não ser o mesmo dos 30 anos.

As dores nas costas, por exemplo, podem ser mais frequentes com a idade. Afinal, para muitos de nós, foram seis décadas de má postura, sedentarismo e sobrepeso castigando as vértebras, que acumularia os maus-tratos. Mas “frequente” não é sinônimo de “normal”, dá para entender?

Talvez você não bote fé, mas o seu corpo não tem nenhuma programação natural para sofrer, nem para viver sentindo dolorosamente qualquer uma de suas partes. Nós é que o castigamos, isso é outra história. Estragamos sua programação original. Em condições saudáveis de estilo de vida, o organismo sempre despertaria para viver e não para querer voltar a dormir.

Não, não podemos aceitar que qualquer coisa errada seja o normal da idade. Sendo que, repito, 60 e poucos anos, nos dias de hoje, podem até valer fila preferencial, mas não significa que, por estar nela, alguém pegou a direção da ladeira abaixo. Temos muita facilidade para associar a entrada na vida sexagenária com um corpo emperrado. Errado. E isso, sim, nos faz perder tempo de vida.

 

Originalmente publicado em Viva Bem (UOL), por Lúcia Helena

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